Pintura e Desenho
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Maria Celeste Alves Um rosto profundo: entre a ficção e o ser Celeste Alves é uma pintora-pintora. Porque digo isso? Sobretudo porque o escorrimento é ostensivo. É um escorrimento-manifesto, como que dizendo: “Antes de representar este ou outro rosto, esta ou aquela pessoa, esta ou aquela emoção, estado de alma, ideia ou sensação, sou Pintura”.
Trata-se de um jogo luxuriante do cromatismos, como “catálogo” vivo das possibilidades que a pintura oferece. Daí as inúmeras camadas que se sobrepõem. As transparências que ostentam uma demarche laboriosa. Um processo que não esconde que é processo pictórico. Uma miríade de vestígios da aplicação do pigmento que define o gesto criador, desafiando o olhar a perseguir-lhe o rasto, as pequenas decisões, os eventuais arrependimentos, as caprichosas espontaneidades, a pulsão incontrolável que comanda a mão.
Rosto feminino. Imagem Fantasmática. Elegíaca. Melancólica. Eco surdo enquanto postura de auto-meditação sobre o ser da pessoa do artista, ou, antes, sobre o ser artista em si mesmo. Há qualquer coisa de desvelatório e ao mesmo tempo de encoberto e resignado sobre o ser que a habita. Lá dentro qualquer coisa espreita, não traduzível. Algo inextrincável. Enigmático, como o semblante da esfinge, como o sorriso da Gioconda... Somos vários, somos muita coisa a vários tempos e ao mesmo tempo, em razão da fugacidade imparável da vida, da oscilação sinuosa que nos trai e desconsola.
Mas há algo que reside, que resiste e permanece no turbilhão dos acontecimentos. No meio da aplicação matérica dos pigmentos entrevê-se algo de semblante grave. Ela olha para nós, mas só depois de ter olhado para si mesma. Para Maria Celeste Alves a pintura é meditação sobre si própria. Ela é o seu objecto e o seu sujeito. Os dois num só. Será que o olhar diz tudo? O olhar nunca diz tudo - confessemos. Ou melhor: o olhar nunca diz nada! Nós é que podemos, a posteriori, dizer algo sobre o olhar. O que quisermos dizer, certos da incerteza no tocante à sua intenção, ao conteúdo encoberto, ou apenas ao parcialmente desvelado.
O rosto pode ser palco de um universo incomensurável de ficções. O rosto engana, simula, dissimula. Teatro vivo. Máquina ardilosa de encenações constantes e sobrepostas. É um palco ambíguo. O que é profundo permanece profundo, intocável, sob o véu da verdade. Apenas entrevemos uma ponta que nos diz que o que vemos é apenas um eco (ou uma ínfima parte) daquilo que representa. A imagem apenas diz que ela não esgota o que não está revelado. Como é que um substrato profundo pode ser submergido pela matéria? A Representação responde. Só eu sei o que há de profundo numa imagem. Eu artista. Eu pintor. Não o posso traduzir por palavras.
A pintura é uma revelação posta em suspenso. Devemos atender à ficção a si associada. Porque representar é tornar presente, estabelecendo uma ligação estrita entre uma imagem (material) e outra (mental), uma ideia e outra, ao apresentar algo, um signo, uma palavra, uma imagem que faça a vez daquilo que efectivamente não está, ou que está somente por remissão. Está representada por um porta-voz que fala por ele, que o convoca e o invoca, como se estivesse de facto. Mas não está. O lado profundo das coisas, dos seres, do artista, está lá, representado. Mas não está lá em presença.
Maria Celeste não está interessada na presença, no existente. Esse é fugaz, muda como a luz do dia, oscila, esquiva-se ao olhar demorado, ao olhar que medita, ao olhar que deseja compreender e dar sentido. Só podemos dar sentido ao nosso ser criando um espaço onde o tempo é outro dentro do tempo da vida, agindo a contracorrente daquele que corre a sete pés desalmado, o tempo maldito e esquivo.
A essência que define a orla deste profundo não pode estar condensada na imagem do documento (fotografia, filme ou fotocópia...), neste ou aquele momento captado (ou capturado) do relógio, situado na duração linear, como sucessão de ínfimas parcelas que compõem o fio da água que corre, que postula o continuum a que enquanto seres biológicos estamos sujeitos. O profundo, o substrato, a essência, é aquilo que está para lá deste ou daquele momento. E que ao mesmo tempo engloba todos.
Não é o rosto do sujeito quando tem ou teve 20, 30 ou 40 anos, é um rosto intemporal (um rosto interior, imaginado, projectado) porque é o rosto de todos os tempos reunidos num só. Há qualquer coisa no rosto que fica e perdura apesar dos anos, da idade, das mutações e metamorfoses do corpo e da fisionomia. Esse rosto, sim, faz a vez de algo mais “profundo”. Antes de o tentarmos ver, escutemo-lo, na reverbação do eco longíquo. Na vibração que erradia de uma alma que permanece lá, inacessível, intraduzível, a não ser pelos meandros da ficção, pela via de um rosto composto para esse efeito. De um rosto profundo...
Bárbara M. Junho de 2010













